Steve Vai e a tragédia musical do século XXI

Hoje estava navegando – não é “hiperlinkando” o tema que a molecada hoje em dia usa para isso? – pelo YouTube, buscando vídeos ridículos e inúteis, destes que existem aos montes, para me entreter nessa tarde chuvosa em Penang.

Eis que me deparo com a regravação de We Are the World, feita em prol dos afetados pelo terremoto no Haiti no início deste ano. Curioso que sou, não tive dúvidas em apertar o play para ver quem estava ali.

Confesso que talvez tenha reconhecido apenas cinco dos artistas. Nunca vi tamanha falta de talento reunida em um só ambiente: Jonas Brothers, Miley Cyrus, Pink, um monte desses cantores e cantoras de R’n'B cuja importância para a música mundial é a mesma do Trio Los Angeles.

Salvou ali o Carlos Santana,  talvez a única pessoa realmente decente no meio de tantos cantores movidos a Auto Tune (o famoso programinha de computador que faz com quem não cante nada soar como a Billie Holiday) e egressos de reality show musicais.

Mas e o Steve Vai?, perguntaria o leitor mais atento. Não, felizmente ele não estragou a sua genial carreira participando da tentativa patética de repetir o sucesso da We Are the World original de 1985 (é só ver o vídeo da primeira versão e comparar para entender o meu ponto). Deixou para fazer isso de uma outra maneira, mais interessante e não menos patética.

Entre os miseráveis musicais da We Are the World 2010 estava uma mocinha guitarrista chamada Orianthi Panagaris (descobri quem era após uma rápida consulta à mãe dos burros Wikipedia). Hiperlinkando novamente – menina bonita que toca guitarra? Opa, bora lá – cheguei no seguinte vídeo:

O que faz aí, senhor Vai? De tu, esperava algo melhor. Já tinha perdoado o tal do Grammy com a Nelly Furtado, e aí me aparece com essa? Tem cada coisa que gravadora faz…

Bom, ao que parece, a tal Orianthi é australiana e era a guitarrista do Michael Jackson na série de shows que ia fazer na O2 Arena de Londres, e aparece no documentário This Is It. Não toca mal, mas, convenhamos, para quem já viu o MJ tocando com a Jennifer Batten, é de canibalizar as orelhas – só ver o vídeo da menina tentando tocar o solo (de todos os solos) de Beat It, talvez a maior peça de guitarra dos anos 80.

Eddie Van Halen deve estar se revirando em sua tumba. Ahm, verdade, ele ainda não morreu. Bom, deve estar se revirando em seu sofá, pelo menos.

Sobre a tal moça descobri também que “sairá em turnê com o Adam Lambert” (Adam quem? Esquece…) e que tocou com a Carrie Underwood (ahm? Bom, esquece também) no Grammy. Andando com tanta gente importante assim, o céu é o limite… só ver o talento natural da moça neste outro vídeo:

Juro que quando eu via MTV, a coisa era bem melhor. A coisa mais horrorosa que podia surgir na telinha era talvez o Weird Al Yankovic – que nem era tão horroroso assim. Pelo menos tocava Smells Like Teen Spirit.

Hoje em dia, taí no YouTube (que é tão importante para a música hoje como a MTV era nos anos 90): você vai clicando e aparece Orianthi e seus companheiros de reality show. A benção do novo século é também a sua maldição.

Mal posso esperar pelo surgimento de um plugin anti-música ruim para o meu Firefox já que, para a música voltar a ser boa, vai levar pelo menos uns cem anos.

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